Mas a verdade é que não foi apenas uma decisão difícil. Cada passo até o Colo Sul (7.986 m) já havia sido uma batalha. O Flanco do Lhotse parecia não ter fim, e atravessar o Esporão de Genebra levou muito mais tempo do que eu imaginava. Mas, justo ao pôr do sol, às 18h45, consegui me lançar dentro de uma barraca no Acampamento 4. Era a chegada a um novo limite do corpo e da mente.

 Naquele momento, pensei: “Esse vento precisa diminuir, senão será impossível tentar o cume.” Mas o que aconteceu foi o contrário. O vento aumentou, um rugido constante que chicoteava a barraca e nos impedia de dormir. Às duas da manhã, um jovem sherpa que eu nunca tinha visto entrou em nossa barraca, praticamente mudo por não falar inglês, tremendo de frio e com as mãos congeladas. Carregara garrafas de oxigênio até ali, mas não tinha comida nem água. Cuidei dele como pude, massageei suas mãos, dei minhas luvas, ofereci chá quente a cada acesso de tosse. Estava sem saco de dormir, assim como eu. Sobrevivíamos com nossos macacões, num frio de 30 graus negativos.

 Às quatro da madrugada, outro sherpa apareceu, exausto, e também se jogou dentro da barraca. Lá fora, o vendaval seguia ensurdecedor.

 Ao amanhecer, nosso chefe dos sherpas veio desde a sua barraca, trazendo um pouco de chá, confirmando que subir seria impossível. Era hora de descer. Estávamos a poucos passos do paraíso, mas tínhamos que voltar.

 Toda descida parece rápida, e no Flanco do Lhotse fomos finalmente abraçados pelo sol. Um novo e belo dia nas alturas do Himalaia. Mas bastava levantar os olhos, e lá estava a pirâmide final do Everest sendo açoitada por ventos de quase 100 km/h, um espetáculo tão grandioso quanto impiedoso.

 A montanha impôs seu limite. E eu? Eu também reconheci o meu. Desde o início da expedição, sofria com uma infecção de garganta severa. A tosse era constante, mal conseguia engolir, dormir ou me alimentar. A força desapareceu. Cheguei ao acampamento-base com a sensação de estar voltando à Terra após quase tocar o espaço. Faltou tão pouco…

 Meu sonho era comemorar os 30 anos da minha primeira conquista do Everest em uma noite de lua cheia, como aconteceu em 14 de maio de 1995. Mas agora restava observar a previsão do tempo e torcer por uma nova janela.

 Depois de enfrentar aqueles ventos congelantes a 8 mil metros, minha garganta ficou ainda pior. Eu mal conseguia andar dez metros sem parar para respirar. A verdade dolorosa me visitou em silêncio, dentro da barraca, na solidão do acampamento-base: era hora de desistir da escalada. Para viver, eu precisava descer!

 Mas essa expedição foi muito mais do que uma tentativa de voltar ao topo do mundo. Fui ao Everest com um propósito maior: levar ao cume do planeta a bandeira da Restauração Ecológica, estampada com a silhueta de uma araucária, árvore símbolo do Paraná e hoje ameaçada de extinção.

 Essa bandeira representa a luta pela vida e pela biodiversidade. Representa a Reserva Natural do Alpinista, uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) que acabo de implementar em Campo Largo (PR). Ali, estamos restaurando um precioso remanescente da Floresta com Araucária, reintroduzindo abelhas nativas e protegendo as nascentes do rio Açungui, que forma o Rio Ribeira, uma das últimas fontes de água potável para milhões de pessoas.

 Colocar essa bandeira no cume do Everest era um chamado simbólico ao mundo: precisamos restaurar as florestas, proteger nossas águas e preservar a vida em todas as suas formas. A Restauração Ecológica é um caminho essencial para equilibrar o clima, recompor a flora, trazer de volta a fauna e garantir o futuro da humanidade.

 A ideia de voltar ao Everest surgiu em 2024, quando, após quatro anos de dedicação à RPPN, meus recursos se esgotaram. E pensei: talvez, ao escalar novamente a montanha mais alta do mundo, eu possa despertar consciências e conquistar o apoio necessário para essa causa. Foi então que nasceu a “Expedição 30 Anos do Brasil no Everest, em prol da Restauração Ecológica”.

 E deu certo! Pela primeira vez em minha carreira, todas as cotas de patrocínio foram viabilizadas, ainda que às vésperas da expedição. Primeiro veio o apoio generoso do #BrazilsBest Institute (através de seu fundador Philipp Klose), depois da Sanepar, em seguida da Growth Supplements e finalmente da Helisul Aviação, empresa que, como eu, nasceu em Foz do Iguaçu.

 A verdade é que escalar o Everest é difícil, mas plantar uma floresta viva, onde onças, veados e abelhas nativas possam encontrar refúgio entre nascentes e araucárias, é ainda mais desafiador. E é isso que estamos fazendo na Reserva Natural do Alpinista: restaurando, educando, protegendo.

 Graças aos nossos patrocinadores, não só voltei ao Himalaia, como também viabilizamos o plantio de 400 mudas enxertadas de araucária e vamos elaborar o Plano de Manejo da RPPN, com diagnóstico da fauna e da flora, zoneamento e diretrizes para o uso sustentável do território.

 Hoje, o meu Everest é a Restauração Ecológica! E que minha maior conquista seja a manutenção da biodiversidade!

Estou imensamente grato por Deus ter me permitido chegar novamente aos 8 mil metros do Everest e, mais importante ainda, por estar me dando forças para voltar ao Brasil e continuar cuidando das abelhas, dos rios e das araucárias. 

Ao lado dos vizinhos da comunidade de Itambézinho e dos amigos do município de Campo Largo, sei que posso transformar ainda mais esta importante porção da APA da Escarpa Devoniana, a maior unidade de conservação do Paraná!

Estou com o coração em paz, com o espírito ainda mais comprometido com a montanha que verdadeiramente me importa: a natureza viva e em equilíbrio, que precisa de nós aqui embaixo!

Muito obrigado pelo carinho de todos! Namastê!